Perdão de dívida do FIES

Abatimento FIESMED: Período Correto, CNES e Como Garantir Judicialmente

Resumo: O abatimento FIESMED é um desconto no FIES para médicos e outros profissionais de saúde que trabalharam no SUS durante a pandemia de COVID-19 por pelo menos 6 meses. Cada mês trabalhado nesse período reduz 1% do saldo devedor. O direito está na Lei nº 10.260/2001 (art. 6º-B, III), incluído pela Lei nº 14.024/2020.

A principal divergência é quantos meses contam. O Ministério da Saúde considera só 9 meses, mas a Justiça Federal tem reconhecido até 25. Há também decisão de 2025 que garantiu o desconto a médico residente que atendeu no SUS na pandemia.

O que é o abatimento FIESMED e fundamento legal

O abatimento FIESMED é a redução de 1% ao mês no saldo devedor consolidado do contrato FIES — incluindo os juros devidos no período —, aplicada proporcionalmente a cada mês de atuação no SUS dentro dos critérios legais. O benefício está previsto no art. 6º-B, III, da Lei nº 10.260/2001, inserido pela Lei nº 14.024/2020, que ampliou as hipóteses originais do art. 6º-B (criadas pela Lei nº 12.202/2010 para médicos da ESF e professores) para contemplar todos os profissionais de saúde que atuaram durante a emergência sanitária da COVID-19.

O pedido é feito pela plataforma FIESMED. Segundo o Guia FIESMED do Ministério da Saúde, o Ministério publica no gov.br a lista de profissionais elegíveis com o número de meses reconhecido, e o FNDE aplica o abatimento no contrato junto ao agente financeiro, com base no período de janeiro a dezembro do ano anterior.

É fundamental distinguir o abatimento de outros benefícios do FIES. A carência estendida do FIESMED — prevista no art. 6º-B, §3º, para médicos residentes em especialidades prioritárias — suspende temporariamente as parcelas sem alterar o montante total da dívida. O abatimento reduz permanentemente o saldo devedor: os juros futuros passam a incidir sobre um valor menor a cada mês aplicado. Entre os abatimentos, o Guia FIESMED do Ministério da Saúde estabelece que os benefícios não são cumulativos: quando o profissional é elegível ao abatimento de 1% por atuação em Saúde da Família, o abatimento COVID é preterido.

O benefício alcança médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais de saúde com contrato FIES ativo, independentemente da data de contratação — a Lei nº 14.024/2020 não impõe esse requisito. A operacionalização do abatimento é anual (art. 6º-B, §4º, da Lei nº 10.260/2001): o primeiro abatimento só é processado após 6 meses mínimos de trabalho, e os pedidos de cada ano são analisados com base em meses trabalhados até dezembro do ano anterior.

Requisitos, CNES e médico residente

Requisitos para o abatimento COVID-19

Requisitos para o abatimento FIESMED COVID-19: contrato FIES ativo, profissional de saúde, atuação no SUS e mínimo de 6 meses

Documentação necessária

Documentação necessária para o abatimento FIESMED: CNES, contrato FIES, contrato de trabalho, holerites, escalas e print do pedido

CNES: quando a ausência não é impeditiva

O CNES é o critério adotado pelo Ministério da Saúde para confirmar a atuação do profissional. Sem registro no sistema, o pedido é negado administrativamente — independentemente de outros documentos. A competência para inserção e atualização dos dados no CNES é do gestor estadual ou municipal, não do profissional. O erro do empregador no cadastro não pode ser imputado ao médico como fundamento de negativa de direito legalmente assegurado.

O TRF-6 (processo 6000270-95.2024.4.06.3808, 3ª Turma, 22/12/2025) reconheceu o direito ao abatimento com base exclusivamente em documentação alternativa quando o vínculo do hospital com o SUS foi contestado na via administrativa. O TRF-3 (AI 5011270-08.2023.4.03.0000), em caso envolvendo atuação em unidade básica de saúde em Ibirarema/SP e no HC FAMEMA (Marília/SP), reconheceu o abatimento de 25% para 25 meses ininterruptos de março/2020 a abril/2022, reformando decisão que havia negado o benefício. O Ministério da Saúde publica no gov.br a lista de profissionais elegíveis ao abatimento COVID; quem não encontra o nome ou discorda da contagem de meses pode recorrer pelo e-mail fiesmed@saude.gov.br, segundo o Guia FIESMED.

Verificação de CNES, lista de elegíveis e viabilidade do abatimento FIESMED
Registro no CNES, presença na lista de elegíveis e número de meses de atuação: os pontos que definem o período de abatimento FIESMED a que o profissional tem direito.

Entre em contato conosco

O período correto da pandemia: por que 25 meses e não 9

Período da pandemia: posição do Ministério vs. posição dos TRFs Período da pandemia: posição do Ministério vs. posição dos TRFs Ministério da Saúde (9 meses — até dez/2020) TRF-1, 3, 4 e 6 (25 meses — até abr/2022) mar/2020 dez/2020 abr/2022 Ministério: 9 meses TRF-1, TRF-3, TRF-4, TRF-6: 25 meses ← 16 meses negados administrativamente →

A divergência entre 9 e 25 meses é o ponto central da maioria dos processos judiciais sobre o abatimento FIESMED. O Ministério da Saúde limita administrativamente o período a março–dezembro de 2020 (9 meses), com base em interpretação restritiva do Decreto Legislativo nº 6/2020. Esse entendimento foi afastado por TRF-1, TRF-3, TRF-4 e TRF-6 em precedentes expressos.

O marco de início é o Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, que reconheceu o estado de calamidade pública. O encerramento foi declarado pela Portaria GM/MS nº 913, de 22 de abril de 2022, que pôs fim à Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) e entrou em vigor 30 dias após a publicação — por isso algumas decisões estendem o período até maio de 2022. A Portaria GM/MS nº 188, de 3 de fevereiro de 2020, que havia declarado a ESPIN, foi citada pelo TRF-4 (APL 50092256620224047201/SC) como marco complementar.

O TRF-1 confirmou esse entendimento em acórdão unânime na Apelação 1034457-80.2022.4.01.3500: concedeu o abatimento no período de junho/2020 a 21/05/2022, negando provimento ao recurso da União. O TRF-3 (AI 5011270-08.2023.4.03.0000) reconheceu o abatimento de 25% para os 25 meses ininterruptos de março/2020 a abril/2022, reformando a decisão de primeira instância que havia negado o benefício.

Impacto financeiro: 9 meses vs. 25 meses

O cálculo é objetivo: 1% ao mês sobre o saldo devedor consolidado. A diferença entre o período do Ministério (9 meses) e o período reconhecido pelos TRFs (25 meses) resulta em 16% adicionais negados.

Impacto financeiro do abatimento FIESMED: comparação entre 9 e 25 meses para saldos de R$ 50 mil, R$ 100 mil e R$ 150 mil

Processo administrativo

O pedido é feito na plataforma FIESMED do Ministério da Saúde. Segundo o Guia FIESMED, o abatimento considera o período de janeiro a dezembro do ano anterior. Pedidos que ultrapassem esse corte devem ser renovados no ano seguinte. O abatimento é concedido na fase de amortização do financiamento, e o sistema exige o profissional na condição de válido no CNES.

Fluxo: do pedido administrativo à liminar

1

Verificar CNES e lista de elegíveis

Confirmar nome e períodos de vínculo no CNES. Checar status na lista de elegíveis publicada pelo Ministério da Saúde no gov.br.

2

Protocolar pedido no FIESMED

Acessar fiesmed.saude.gov.br com CNES, contrato FIES, extrato do saldo e documentação de vínculo com o SUS. Guardar print de tudo.

3

Resultado: negativa ou ausência de resposta

Negativa total, negativa parcial (9 meses) ou silêncio administrativo: os três abrem acesso à Justiça Federal.

4

Ajuizar ação na Justiça Federal

Ação ordinária com tutela de urgência (art. 300 CPC) ou mandado de segurança (prazo: 120 dias da ciência da negativa). Réus: União, FNDE e agente financeiro.

5

Liminar deferida

O juiz determina inclusão na lista ou recálculo do saldo e pode fixar multa diária para o caso de descumprimento.

✓

Abatimento aplicado — saldo recalculado

Os meses trabalhados são aplicados como crédito sobre o saldo devedor atual. Juros futuros incidem sobre o valor menor.

Etapas do abatimento FIESMED: verificar CNES, protocolar no FIESMED, erro no sistema, avaliar o resultado e acionar a Justiça Federal

Via judicial

O instrumento mais usado é o mandado de segurança, impetrado na Justiça Federal. O mandado de segurança é dirigido contra a autoridade responsável pela negativa ou pela omissão. Nos casos de abatimento FIESMED, as decisões costumam apontar o Presidente do FNDE e o Secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, e algumas incluem também o agente financeiro (CEF ou Banco do Brasil, conforme o contrato).

O mandado de segurança exige prova pré-constituída: o direito precisa estar demonstrado pelos documentos juntados já na impetração, sem produção de provas no curso do processo. Por isso, o extrato do CNES, o contrato FIES, o extrato do saldo devedor e o registro do pedido administrativo, com a negativa ou o print do erro no sistema, devem acompanhar a inicial. O pedido de liminar se apoia no art. 7º, III, da Lei nº 12.016/2009: o fundamento relevante vem da legislação e da documentação de atuação no SUS, e o risco de ineficácia da medida vem da continuidade do pagamento sobre um saldo incorreto, com juros sobre a diferença não abatida.

O prazo para impetrar é de 120 dias contados da ciência do ato (art. 23 da Lei nº 12.016/2009). Depois desse prazo, ou quando o caso depende de provas que não estão nos documentos, como uma discussão sobre o vínculo do hospital com o SUS, o caminho é a ação ordinária com pedido de tutela de urgência (art. 300 do CPC). Nesse caso os réus são a União, o FNDE e o agente financeiro. Para detalhes sobre o mandado de segurança como instrumento processual, veja nosso guia sobre mandado de segurança em direito médico.

Profissionais com negativa pelo período de 9 meses podem pedir o recálculo com base nas decisões dos TRFs citadas acima: os meses restantes são aplicados como crédito sobre o saldo devedor atual. Os valores já pagos sobre o saldo incorreto não são restituídos em dinheiro, mas deduzidos do saldo remanescente.

Conclusão

Quem trabalhou no SUS durante a pandemia por pelo menos 6 meses e tem contrato FIES tem direito, por lei, a um desconto de 1% no saldo devedor para cada mês trabalhado nesse período.

Na prática, o pedido costuma travar em problemas do sistema, não da lei: cadastro no CNES desatualizado, plataforma FIESMED com erro, pedido negado sem explicação ou contagem de apenas 9 meses, quando a Justiça Federal tem reconhecido até 25. Há também decisão de 2025 que garantiu o desconto a médico residente que atendeu no SUS na pandemia.

O primeiro passo é conferir o CNES e a lista de elegíveis do Ministério da Saúde e fazer o pedido no FIESMED. Se o pedido for negado, a principal via é o mandado de segurança na Justiça Federal, que deve ser apresentado em até 120 dias depois da negativa. Enquanto a situação não se resolve, os juros continuam correndo sobre um saldo que já deveria estar menor.

FICOU COM ALGUMA DÚVIDA?

Envie sua pergunta. Se seu caso demandar atuação jurídica, indicaremos o caminho adequado.

Enviar minha dúvida

Perguntas Frequentes

Como funciona o FIESMED para solicitar o abatimento COVID?

O pedido é feito em fiesmed.saude.gov.br. O abatimento é concedido na fase de amortização do financiamento e exige registro válido no CNES. Depois da análise, o Ministério da Saúde publica no gov.br a lista de elegíveis e o FNDE aplica o abatimento no contrato. Em caso de erro no sistema, o contato indicado pelo Guia FIESMED é o e-mail fiesmed@saude.gov.br. Guardar o print do erro é essencial para eventual ação judicial.

Qual o período correto para calcular o abatimento: 9 ou 25 meses?

As decisões judiciais reconhecem até 25 meses: o período começa em março de 2020 e vai até abril ou maio de 2022, conforme a decisão. O Decreto Legislativo nº 6/2020 marca o início, e a Portaria GM/MS nº 913, de 22 de abril de 2022, declarou o fim da ESPIN, com vigência 30 dias após a publicação. O Ministério da Saúde adota 9 meses (até dezembro de 2020), mas esse entendimento foi afastado pelo TRF-1 (APL 1034457-80.2022.4.01.3500 — acórdão unânime), TRF-3 (AI 5011270-08.2023.4.03.0000), TRF-4 (APL 50092256620224047201/SC) e TRF-6 (processo 6000270-95.2024.4.06.3808).

Médico residente tem direito ao abatimento FIESMED?

Há decisão nesse sentido. Em junho de 2025, a 1ª Vara Federal de Carazinho/RS reconheceu o abatimento a médica que atuou como residente em hospital universitário vinculado ao SUS, limitado ao período da residência, conforme notícia divulgada pelo TRF-4. O fundamento: residentes exerceram atividade assistencial direta no SUS durante a emergência sanitária, independentemente da denominação do vínculo.

O abatimento FIESMED prescreve?

Para mandado de segurança contra negativa administrativa formal: sim — prazo decadencial de 120 dias da ciência do ato (art. 23 da Lei nº 12.016/2009). Para ação ordinária: não há prazo decadencial específico, mas a demora implica continuidade dos juros sobre o saldo não reduzido. A prescrição do crédito do profissional contra o Estado segue a regra geral de 5 anos (Decreto nº 20.910/1932), contados do momento em que o direito poderia ter sido exercido.

Preciso fazer o pedido administrativo antes de ir à Justiça?

Em regra sim, para demonstrar resistência da Administração e configurar interesse de agir. O TRF-3 (AI 50205702820224030000/SP) afastou essa exigência com base no art. 5º, XXXV, da CF especificamente quando o sistema FIESMED apresenta erros técnicos que impedem o protocolo. Print do erro salvo é prova suficiente para acionar a Justiça Federal diretamente nesses casos.

Médico que não consta no CNES perde o direito?

Administrativamente, a ausência no CNES resulta em negativa automática. Judicialmente, é possível comprovar a atuação por contratos de trabalho, holerites, escalas de plantão e declarações da unidade. O TRF-6 (processo 6000270-95.2024.4.06.3808) reconheceu o direito com base exclusivamente em documentação alternativa quando o vínculo do hospital com o SUS era contestado. O erro no cadastro é do gestor estadual ou municipal — não do profissional.

Onde consultar a lista de elegíveis do abatimento COVID?

O Ministério da Saúde publica no gov.br a lista de profissionais elegíveis ao abatimento COVID, com o número de meses reconhecido. Quem não encontra o nome ou discorda da contagem pode recorrer pelo e-mail fiesmed@saude.gov.br, segundo o Guia FIESMED. A lista de regiões prioritárias de dezembro de 2024 se refere a outro benefício: o abatimento de 1% por atuação em Saúde da Família.

O abatimento COVID pode ser somado ao abatimento de 1% da Saúde da Família?

Não. O Guia FIESMED do Ministério da Saúde afirma que os benefícios não são cumulativos e que o abatimento COVID é preterido quando o profissional é elegível ao abatimento de 1%. O mesmo período de atuação em Saúde da Família não conta para os dois.

O agente financeiro (Caixa ou Banco do Brasil) pode ser réu?

Sim. O TRF-3 (AI 50205702820224030000/SP) e o TRF-1 (APL 1034457-80.2022.4.01.3500) confirmaram a legitimidade passiva do agente financeiro por integrar a cadeia contratual do FIES.

Posição dos Tribunais Regionais Federais

Posição dos Tribunais Regionais Federais sobre o abatimento FIESMED: TRF-1, TRF-3, TRF-4, TRF-5, TRF-6 e JFSP

Referências Normativas

Lei nº 10.260/2001 (art. 6º-B) — Planalto  ·  Lei nº 14.024/2020 — Planalto  ·  Lei nº 12.016/2009 (art. 23) — Planalto  ·  Decreto Legislativo nº 6/2020  ·  Portaria GM/MS nº 188/2020  ·  Portaria GM/MS nº 913/2022 — Planalto  ·  Portaria Conjunta SAS/SGTES nº 3/2013  ·  Guia FIESMED — Ministério da Saúde — gov.br


Autor: Marcel Zeferino. Conheça o autor na página Sobre Nós.